2026 também marca os 65 anos da morte de um dos maiores escritores estadunidenses e o centenário de mais um de seus livros
2026 marca os 65 anos da morte de um dos maiores escritores estadunidenses e o centenário de duas de suas obras. Ernest Hemingway, figura controversa e icônica, é mais conhecido por sua obra-prima, O Velho e o Mar, e, mais recentemente no Brasil, por ter sido mencionado pelo deputado federal Marcel van Hattem, que creditou ao autor uma frase que ele jamais escreveu. Contudo, o pior é constatar que um parlamentar de direita desconheça o histórico antifascista e as inclinações políticas de Hemingway.
O Sol Também se Levanta, seu primeiro romance, completa 100 anos e, para muitos, supera O Velho e o Mar. A trama gira em torno de expatriados britânicos e americanos em Paris e suas viagens pela Europa, retratando com maestria a “Geração Perdida” do pós-Primeira Guerra Mundial. Mesmo ambientado em um contexto específico, o livro permanece mais atual do que se imagina.
Hemingway explora o amor e a dor de maneiras únicas; transita pela solidão e vai ao encontro da desilusão com o mundo, criticando os conflitos superficiais, o capitalismo e a ganância humana. É uma obra que exige dupla leitura: uma contextualizada pelos danos da Grande Guerra e outra voltada à atualidade, percebendo que pouco mudou em um século.
O livro é o retrato de uma sociedade que não se encontra, incapaz de trilhar o caminho da paz, alicerçada no consumismo e na necessidade de destruir o que estiver no caminho de seus objetivos. Em tempos de conflitos que resultam na morte de milhões de inocentes sob mísseis, esta leitura torna-se fundamental para compreendermos o que deveria ser o amor e como enfrentar nossos conflitos internos e externos.
Além do centenário de seu primeiro romance, 2026 também recorda os 65 anos do suicídio do autor, ocorrido em 2 de julho de 1961. As Torrentes da Primavera, outra obra relevante do autor, também chega ao seu centenário de publicação original.
A idiotice de Marcel van Hattem
Antes de citar Hemingway para projetar erudição, seria prudente ler suas obras ou, ao menos, conhecer sua biografia. O erro de Van Hattem foi duplo: desconhecer a trajetória política do autor e atribuir-lhe uma frase apócrifa. O deputado deveria ter lido Por Quem os Sinos Dobram; talvez assim compreendesse a visão de mundo de Hemingway e sua luta ferrenha contra o fascismo e a extrema-direita na Guerra Civil Espanhola.
Grande parte da vida de Hemingway foi ligada a causas de esquerda, incluindo o período em que viveu em Cuba. Ele foi monitorado pelo FBI e pela CIA devido às suas associações políticas. Para evitar o erro do parlamentar, vale o registro: a frase “Quando fores à guerra, cuida de quem está ao teu lado” não pertence a Hemingway. Ele não era um pacifista sentimental; era um homem de ação, adepto inclusive do embate armado contra regimes autoritários de direita.
