Ex-banqueiro usou capanga para ameaçar funcionários e monitorar agentes públicos e membros do Judiciário
O que começou como uma ascensão meteórica no setor bancário brasileiro culminou no maior escândalo financeiro da história do país. Com um rombo estimado entre R$ 47 bilhões e R$ 52 bilhões, a liquidação extrajudicial do Banco Master e do Will Bank, decretada pelo Banco Central, abriu uma “Caixa de Pandora” que atinge o Supremo Tribunal Federal (STF), grandes corretoras e o topo da elite financeira. No entanto, os números frios escondem uma realidade sombria: a transformação de um banco em uma organização criminosa que utilizava o terror como método de gestão.
O que você vai ler neste texto:
- A Engenharia do Golpe: Como ativos de R$ 850 milhões viraram R$ 6 bilhões nos balanços.
- A Milícia Financeira: O papel do “Sicário” e de Fabiano Zettel na manutenção da impunidade.
- A Rota do Dinheiro: O uso de empresas de fachada para desviar depósitos de correntistas e a participação de BTG Pactual, Nubank e XP Investimentos

Daniel Vorcaro e a tríade do crime
No centro da tempestade está Daniel Bueno Vorcaro, de 42 anos. Atualmente preso na Penitenciária Federal de Brasília após a Operação Compliance Zero, Vorcaro é acusado de liderar uma quadrilha voltada à lavagem de dinheiro, fraude em balanços e cooptação de agentes públicos. Para sustentar o esquema, ele contava com dois pilares fundamentais:
- O Braço Institucional (Fabiano Campos Zettel): Cunhado de Vorcaro e sócio do escritório Zettel e Zettel Advogados, Fabiano era o “embaixador” do grupo em Brasília. Sua função era garantir blindagem jurídica e política, utilizando sua influência para abrir portas nos tribunais superiores e neutralizar a fiscalização do Banco Central.
- O Braço Armado (O “Sicário”): Codinome do chefe do núcleo de “inteligência” do banco. Um ex-agente de segurança encarregado de garantir o silêncio interno. O “Sicário” comandava uma rede de espionagem ilegal e era o executor de ameaças diretas contra quem ousasse denunciar as fraudes.
O Elo de Ouro: Como Fabiano Zettel blindou o crime no Judiciário
A investigação da Polícia Federal na Operação Compliance Zero detalha que o escritório Zettel e Zettel Advogados, liderado pelo cunhado de Vorcaro, funcionava como uma “embaixada de interesses” dentro de Brasília. Não se tratava apenas de defesa técnica, mas de uma engenharia de influência que garantia ao Banco Master uma sobrevida inexplicável diante de um rombo de R$ 52 bilhões.
A ponte com os Ministros
Documentos e fluxos financeiros interceptados pela PGR sugerem que Zettel era o articulador direto das relações que agora colocam ministros sob suspeita:
- A “Consultoria” de Toffoli: O escritório de Zettel é suspeito de subcontratar parceiros comerciais ligados à Reag Investimentos (sócia de Vorcaro). O objetivo seria criar um “cordão de isolamento” jurídico em torno de decisões de Dias Toffoli que favoreceram o grupo, sob o pretexto de garantir a estabilidade do sistema financeiro.
- Contratos com o Escritório de Viviane de Moraes: A PF apura se o escritório de Fabiano Zettel serviu de ponte para a contratação do escritório da esposa de Alexandre de Moraes. Embora o ministro negue influência, investigadores buscam entender se esses contratos milionários de “prestação de serviços” eram, na verdade, uma forma de garantir que o Master não sofresse intervenções severas em processos de sua relatoria.
- O “Pedágio” de Lewandowski: A transferência de R$ 5 milhões para o escritório do ex-ministro Ricardo Lewandowski está sendo analisada sob a ótica de um “sucesso antecipado” em causas que tramitavam no STF. A suspeita é que Zettel operacionalizava esses pagamentos como “honorários de êxito” em processos que nunca chegaram a ter uma contestação real por parte do banco.
A Omissão das corretoras e o impacto no mercado
O escândalo também expôs as entranhas do mercado de capitais. Gigantes como XP Investimentos, BTG Pactual e Nubank enfrentam agora uma enxurrada de Ações Civis Públicas. A acusação central é de que essas plataformas foram omissas ao distribuir os ativos do Master, utilizando a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como um “selo de segurança absoluta” para vender papéis que já apresentavam sinais claros de insolvência.
| Instituição | Volume Distribuído | Status Atual (Março/2026) |
| XP Investimentos | R$ 26 bilhões | Alvo de Ação Civil Pública por induzir investidores ao erro. |
| BTG Pactual | R$ 6,7 bilhões | Processado por omissão de risco e falta de diligência. |
| Nubank | R$ 2,9 bilhões | Questionado pela transparência com clientes de varejo. |
Gestão pelo Medo: Ameaças a Funcionários
Diferente de fraudes financeiras comuns, o caso Master é marcado pela coação física e psicológica. Funcionários das áreas de compliance que identificavam ativos podres inflados em até sete vezes o valor real eram sistematicamente intimidados.
“Não era apenas medo de demissão. Recebíamos fotos da rotina de nossos filhos. O ‘Sicário’ deixava claro que o banco tinha olhos em todos os lugares”, revelou uma testemunha protegida pela Polícia Federal.
O Balcão de negócios e o sequestro do poder político
A investigação da Operação Compliance Zero revelou que a “blindagem” do Banco Master não se limitava ao Judiciário, mas estendia-se ao Congresso Nacional e a diretórios partidários através de um sofisticado esquema de doações e repasses. Documentos apreendidos com Fabiano Campos Zettel indicam que o banco utilizava fundos de investimento e empresas interpostas para injetar recursos em campanhas de figuras proeminentes, como ACM Neto e outros líderes de centro-direita, visando garantir trânsito livre em comissões estratégicas da Câmara e do Senado.
O objetivo era claro: barrar projetos de lei que aumentassem a fiscalização sobre bancos médios e assegurar que a indicação de diretores do Banco Central passasse pelo “crivo” de Vorcaro. Estima-se que mais de R$ 150 milhões tenham sido escoados para o financiamento político entre 2022 e 2024, transformando o Master em um verdadeiro balcão de negócios onde o crédito fácil e as doações eleitorais serviam como moeda de troca para a impunidade.
O Mapa da influência política: Repasses e doações
| Político / Gestão | Natureza do Envolvimento (Segundo a PF/PGR) | Status da Investigação (Março/2026) |
| Jair Bolsonaro | Investigação de repasses via fundos imobiliários e doações de empresários ligados ao Master para o PL. | PGR analisa se houve lavagem de dinheiro em eventos de campanha. |
| Tarcísio de Freitas | Citação de aportes do banco em projetos de infraestrutura do governo de SP e doações via diretório nacional. | Governo de SP nega irregularidades e afirma que as licitações foram técnicas. |
| Cláudio Castro (RJ) | Suspeita de uso de recursos do Master para cobrir rombos em fundos de previdência estaduais. | Alvo de inquérito sobre má gestão de fundos RPPS. |
| Romeu Zema (MG) | Investigação sobre a proximidade de Vorcaro com a cúpula do governo mineiro e patrocínios ao esporte. | Zema afirma que a relação com o empresário foi estritamente institucional. |
| ACM Neto | Identificação de doações vultosas para campanhas e influência em diretórios regionais na Bahia. | Defesa alega que todas as doações foram declaradas e legais. |
Entre a omissão de Campos Neto e a intervenção de Galípolo
A transição no comando do Banco Central (BC) é um dos pontos mais críticos da Operação Compliance Zero. Investigadores buscam entender por que o Master não foi parado antes:
- Roberto Campos Neto (Ex-Presidente do BC): O relatório da Polícia Federal aponta que, sob sua gestão, alertas vermelhos emitidos pelo corpo técnico de fiscalização foram sucessivamente ignorados ou “suavizados”. Documentos apreendidos com Fabiano Zettel sugerem que o banco mantinha um canal de diálogo privilegiado com a diretoria de fiscalização da época. A suspeita é que a política de “não intervenção” e a proximidade social de Campos Neto com o alto empresariado tenham criado uma zona cega que permitiu a Vorcaro inflar seus ativos em 700% sem ser incomodado.
- Gabriel Galípolo (Atual Presidente do BC): Ao assumir, Galípolo herdou uma “bomba relógio”. Sob pressão do TCU e da PGR, ele autorizou a varredura que culminou na liquidação extrajudicial em novembro de 2025. No entanto, Galípolo também enfrenta questionamentos: a oposição alega que ele “segurou” a intervenção por algumas semanas para evitar um pânico bancário que respingasse no governo federal, permitindo que grandes investidores institucionais retirassem parte de seus aportes antes do fechamento das portas, prejudicando o pequeno investidor do varejo (clientes de XP e Nubank).
O BRB: O braço político no coração da capital
O BRB (Banco de Brasília) surge como uma peça lateral, mas estratégica. Sob a gestão de Paulo Henrique Costa, o banco tornou-se um dos principais parceiros de negócios do ecossistema de Vorcaro em Brasília:
- Parcerias Suspeitas: O BRB atuou em conjunto com o Master em diversas operações de crédito estruturado e patrocínios esportivos. A PF investiga se o banco estatal de Brasília foi usado como “ponte” para dar liquidez a ativos podres do Master, ajudando a maquiar o balanço da instituição mineira.
- O Lobby de Zettel: Fabiano Zettel circulava com desenvoltura no BRB, sendo apontado como o articulador de contratos de consultoria que, segundo a PGR, serviam apenas para escoar dinheiro destinado ao pagamento de propinas para políticos do Distrito Federal e do entorno de Ibaneis Rocha.
