Senador mostra ter pouco caráter e, de um inimigo declarado quando saiu do Ministério da Justiça, se filia ao PL para tentar apaziguamento com a mídia
A política brasileira não é para amadores, mas, acima de tudo, não é para quem tem memória curta. Ver Sergio Moro — o homem que deixou o governo Bolsonaro acusando o presidente de intervir na Polícia Federal para proteger a família — agora de mãos dadas com Flavio Bolsonaro no Partido Liberal (PL), é o atestado definitivo de que, em Brasília, os princípios são negociáveis, mas a sobrevivência é absoluta.
Neste texto, você vai ler sobre a mudança no tabuleiro político de 2026: o retorno de Sergio Moro ao PL e seu apoio oficial à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro.
Como essa aliança representa um pacto de sobrevivência que exige o “esquecimento” das graves acusações de 2020.
- O jogo midiático: A estratégia de Moro para reestabelecer pontes com a Rede Globo, buscando uma “normalização” da direita perante a opinião pública.
- O inimigo comum: Porque o embate agressivo com a Folha de S. Paulo tornou-se o rito de passagem necessário para que Moro seja aceito pela militância bolsonarista.
- A linha do tempo: Um resgate histórico que mostra como o ex-juiz e o clã Bolsonaro passaram de aliados a inimigos mortais e, finalmente, a parceiros de chapa.

O apoio a Flavio: Do “Caso Queiroz” ao palanque
O apoio de Moro à pré-candidatura presidencial de Flavio Bolsonaro é o nó mais apertado dessa gravata. Para quem construiu sua imagem sobre o “combate à corrupção sistêmica”, ver Moro endossar o nome que esteve no centro do escândalo das “rachadinhas” — o mesmo que ele, como ministro, foi acusado de não investigar a fundo — é uma pirueta ética que desafia a gravidade.
Moro não está apenas voltando para o PL; ele está aceitando o papel de fiador moral de uma linhagem que ele mesmo ajudou a implodir em 2020. Moro precisa do PL para conquistar o governo do Paraná, e Flavio precisa do “selo Lava Jato” para limpar a imagem de sua candidatura no Sudeste e Sul.
O Triângulo amoroso: Moro, Globo e a gestão Bolsonaro
Nessa volta triunfal, não podemos esquecer o papel da Rede Globo. Durante a gestão Bolsonaro, enquanto o presidente gritava “Globo Lixo” no cercadinho, Moro mantinha uma relação de mútua conveniência com a emissora. Para a Globo, Moro era a face “civilizada” e técnica que legitimava o governo; para Moro, o Jornal Nacional era onde sua imagem de justiceiro era preservada das loucuras do baixo clero.
O escudo de Flávio e o silêncio de Moro
O apoio a Flávio Bolsonaro é o “beija-mão” que Moro precisava para ser aceito no PL de Valdemar Costa Neto — o mesmo Valdemar que, ironicamente, já foi preso pelo sistema que Moro defendia.
- O impacto nos processos: Ao se aliar a Flávio, Moro joga um balde de cal nas críticas que fazia ao “Caso das Rachadinhas” e às interferências no COAF. O ex-ministro, qu e antes pedia investigações rigorosas, agora empresta seu prestígio (o que sobrou dele no lavajatismo) para validar a candidatura presidencial do “01”. Para Flávio, Moro é o “certificado de idoneidade” que ele nunca teve; para Moro, Flávio é o passaporte para o Palácio Iguaçu.
A Globo e a reaproximação estratégica
Durante a gestão Bolsonaro, Moro foi o “queridinho” de setores da Rede Globo que viam nele o contraponto civilizado à truculência do clã. Agora, com a volta ao PL, essa relação entra em uma nova fase.
- Moro sabe que para vencer o governo atual, a direita precisa de uma “limpeza de imagem”. Ele se posiciona como o articulador que fala com a Faria Lima e com o Jardim Botânico.
- A Globo, por sua vez, volta a dar espaço a um Moro “político”, tratando a aliança com Flávio não como uma traição ética, mas como uma “unificação necessária da terceira via com o bolsonarismo”. É a volta do Moro “comentário de bastidor”, aquele que suaviza as arestas do PL para o grande público.
O Embate com a Folha de S. Paulo: O inimigo comum
Se com a Globo o clima é de diplomacia, com a Folha de S. Paulo o tom é de guerra aberta — unindo Moro e Bolsonaro na mesma trincheira.
- Historicamente crítica aos métodos da Lava Jato (especialmente após a Vaza Jato), a Folha é hoje o principal alvo da “nova” retórica de Moro.
- Ao adotar o discurso de que o jornalismo investigativo do jornal é “ativismo político”, Moro finalmente fala a língua da militância bolsonarista. Ele usa os ataques da Folha como medalhas de honra para provar ao PL que “agora ele é um deles”. O embate que antes era técnico, agora é puro suco de polarização digital.
O político que sobreviveu ao Juiz
Moro enterrou de vez a toga para vestir o uniforme de gala do PL e se tornar um sobrevivente na política, desistindo de ser o paladino da moral e da ética. Ao apoiar Flavio Bolsonaro e abraçar o clã Bolsonaro, ele prova que a Lava Jato não foi um fim, mas um meio. O ex-juiz que prometeu “limpar o Brasil” agora ajuda a lustrar a mobília de quem ele mesmo acusou de sujar a casa.
No xadrez de 2026, Moro joga para não desaparecer. Resta saber se o eleitor que o via como um paladino da justiça vai aceitar o papel de figurante nessa reconstrução do clã Bolsonaro.
Ao abraçar o bolsobarismo e mimetizar seus ataques à imprensa crítica, Moro completa sua metamorfose: ele não é mais o juiz que julgava os políticos; ele é o político que aprendeu a julgar o que é conveniente para o seu próximo mandato.
A metamorfose de Sérgio Moro
| Período | Status | Fato Marcante |
| 2014 – 2018 | O Juiz | Protagonista da Lava Jato; condena Lula e se torna herói de parte do país. |
| Jan/2019 | O Superministro | Abandona a magistratura para ser o “fiador ético” do governo Bolsonaro. |
| Abr/2020 | O “Traidor” | Pede demissão acusando Bolsonaro de interferir na PF. Vira inimigo n.º 1 do clã. |
| 2021 – 2022 | O Peregrino | Tenta ser candidato à Presidência pelo Podemos e União Brasil. Fracassa no plano nacional. |
| Out/2022 | O Senador | Eleito pelo Paraná. No 2º turno, volta a apoiar Bolsonaro contra Lula. |
| 2023 – 2025 | O Opositor | Atuação no Senado focada em segurança, mas sob constante ameaça de cassação no TSE. |
| Março/2026 | O Aliado Real | Filia-se ao PL e declara apoio a Flávio Bolsonaro para 2026, visando o Governo do PR. |
Bolsonaro vs. imprensa: A guerra de trincheiras
A relação de Bolsonaro com a mídia sempre foi pautada pelo binômio “Nós contra Eles”. Aqui estão os marcos dessa briga:
O embate com a Rede Globo
- 2019: Bolsonaro ameaça não renovar a concessão da emissora após reportagem do JN sobre o caso Marielle Franco (o famoso vídeo do “porteiro”).
- 2020 – 2021: Cortes drásticos na verba de publicidade federal para o Grupo Globo, privilegiando Record e SBT.
- 2022: No debate da Band, Bolsonaro chama a emissora de “fake news” ao vivo.
- 2026 (O Giro): Com Moro de volta ao PL, nota-se uma “trégua técnica”. A Globo foca em cobrir a união da direita, e o clã Bolsonaro modera os ataques para tentar furar a bolha e atingir o eleitor de centro que assiste à TV aberta.
O conflito com a Folha de S. Paulo
- 2018: Bolsonaro ataca a Folha pela reportagem de “Wal do Açaí”.
- 2020: O famoso episódio do “tem que encher a boca desse cara na porrada” após ser questionado por um repórter sobre depósitos de Fabrício Queiroz para Michelle Bolsonaro.
- 2023 – 2026: A Folha mantém uma postura de fiscalização rigorosa sobre as joias sauditas e as tentativas de golpe. Em resposta, Bolsonaro e agora Moro (emulando o estilo do clã) classificam o jornal como um “panfleto de oposição”, tentando desacreditar qualquer investigação futura.
Por que essa aliança mudou o jogo?
Ao apoiar Flávio Bolsonaro, Moro faz um “pacto de não agressão” com o passado.
- Proteção Mútua: Moro empresta sua face de “combate à corrupção” para limpar a imagem de Flávio; em troca, o PL protege Moro de tentativas de isolamento político.
- O Inimigo Comum: Tanto Moro quanto os Bolsonaro identificaram que a única forma de vencer o atual governo é unificando o discurso contra o STF e a imprensa crítica (especialmente a Folha).
- A “Globalização” de Moro: Ao contrário de Bolsonaro, que sempre preferiu o confronto direto, Moro tenta usar sua boa entrada em setores da mídia tradicional para suavizar a imagem do PL, vendendo uma “Direita 2.0”.
